Esse projeto é um convite para quebrar o tabu. Um canal de inspiração e de informação para quem vive o luto e para quem deseja ajudar

Quando a notícia é que seu amigo não dará mais notícias

Daniel Boa Nova fala sobre a difícil experiência de perder um amigo para vida toda e relembra com carinho outros personagens queridos que passaram por sua vida e partiram tão depressa.

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Eu devia ter uns 7 anos quando Eva, a mulher negra que ajudou a me criar naquele apartamento classe média, trouxe seu sobrinho em casa. Alexandre, também negro, já era pré-adolescente. Criamos uma conexão imediata brincando juntos com a caravela do Playmobil. Mesmo na minha consciência social ainda pouco desenvolvida de criança, dava pra perceber que ele jamais tivera acesso a brinquedos como aquele. Nunca mais o vi. Lembrei do cara um tempo depois e perguntei a seu respeito. Eva me contou que Alexandre morrera com um tiro na testa em uma viela do Jardim Ângela, bairro periférico de São Paulo.

Foi Eva também quem contou que Luís Felipe, meu vizinho de rua e adversário recorrente de peladas, morrera atropelado enquanto pedalava na avenida Sumaré. Eu tinha uns 11 anos e acabara de chegar de uma viagem de férias. Mais de duas décadas depois, lembro como se fosse hoje da forma cowboy-sem-gelo com que Eva deu a notícia:

“Ô baixinho, você lembra do Luís Felipe? Aquele menino que morava aqui no prédio? Morreu!”

Aos 5 anos de idade, eu já perdera um avô que estava bem velhinho. Talvez por ser ainda muito pequeno e morar em uma cidade diferente – ou por uma compreensão natural a todos de que os primeiros a chegar partem antes -, não sofri com o luto. Agora, indo à missa de sétimo dia de um menino 2 anos mais velho que eu, uma ficha importante começava a cair. A percepção da fragilidade da vida. Por acidente ou violência, o fio podia ser puxado da tomada a qualquer hora. Isso incluía as pessoas do meu bairro e da minha idade. Pessoas com quem eu compartilhava histórias de infância.

Logo que completei o terceiro colegial, nas férias de verão a seguir, uma menina do meu ano foi dada como desaparecida. Em tempos pré Whats App, a notícia do sumiço correu boca a boca de conhecidos pelos bares da Vila Madalena. Poucos dias depois, a revelação: morrera afogada. Na hora veio a lembrança da última vez em que estivera com Ila. Coisa de um mês antes, saindo da nossa festa de formatura já com o dia amanhecendo, paguei a ela um cachorro-quente. Que comemos juntos sentados na sarjeta da avenida Henrique Schaumann, rindo da nossa própria condição. Coisa de um mês depois, seu corpo ainda adolescente seria cremado na Vila Alpina, sob as lágrimas de um mundo de gente jovem. Foi minha primeira vez em um funeral.

Na mesma época, se bobear no mesmo verão, fui acampar em Ubatuba e fiz um novo amigo. Régis morava em Rio Claro, interior de São Paulo, e era muito gente fina. Acabou vindo visitar a capital, se hospedou em casa, conheceu meu pai. Lembro que era a época do Rock in Rio 3 e assistimos juntos ao show do Beck pela TV. Amizade de férias. Quando a normalidade voltou à vida, Régis retornou para sua cidade e nosso contato foi minguando. Passado um tempo, fiquei sabendo que ele fora preso como laranja em um caso de tráfico de drogas. Acabou sendo solto um par de anos depois, pelo que ouvi dizer, porém trazendo dentro de si o vírus HIV. Não tardou a morrer. Nunca me despedi.

Tirando que nenhum dos 4 está mais entre nós, o que esses personagens têm em comum? O fato de eu ter criado laços de amizade com eles em algum ponto da minha avenida particular – que, em 2017, contabilizou 35 anos de comprimento. Laços que não necessariamente foram interrompidos pelo dia D. Em alguns casos, já tínhamos nos distanciado. Não fosse a morte e o luto para gravar essas histórias na minha memória, hoje talvez fôssemos apenas mais um na lista do Facebook alheia. A gente se acostumou a ter um milhão de migos ao alcance de um clique. Só que amigo com A maiúsculo é presença. Ainda que por um período de tempo tão curto quanto um almoço, um café, uma temporada de férias. Por mais likes que a gente troque e por mais profundo que seja o assunto no inbox, me desculpe: um dogão de origem duvidosa compartilhado na rua é mais digno de nota. Brincar de Playmobil no mesmo quarto é mais significativo do que trocar vidas no Candy Crush com um avatar.

Porém, conforme os anos passam, uma hora nos desencontramos da grande maioria dos personagens queridos que comparecem às nossas vidas. Já amigos pra vida toda a gente conta nos dedos. Aqueles com quem mantemos a mesma conexão forte, não importa a distância da morada ou a fase da vida. Aqueles que te dão a mão quando você perde o equilíbrio. Esse texto é sobre a perda de uma pessoa nessa categoria. Um amigo que tinha se tornado um braço, uma perna, um órgão vital.

Ricardo e eu nos conhecemos aos 15, nos primeiros dias do primeiro ano, quando caímos na mesma sala de um colégio novo para nós dois. Já viramos amigos quase de forma instantânea, muito motivados pelos gostos musicais em comum – tanto que acabamos formando uma banda que viria a durar por anos e anos. Sua risada singular conectava quem estivesse ao redor. Em especial, quando gargalhava. Ele tinha um estilo pastelão de rachar o bico todo dele. Mano, como eu queria ter essa risada guardada no bolso em MP3. Seus olhos eram azuis e o cabelo loiro cacheado. Mas, falando de forma física, o que chamava atenção de saída no Ricardo era seu tamanho. O cara era gigante em todos os sentidos.

O fato de estar acima do peso nunca o impediu de ser um dos melhores centroavantes com quem já joguei futebol. Impossível roubar a bola do cara. E, pra quem não desse nada de saída olhando seu corpanzil, era um vacilo e lá estava a patada no ângulo. Testemunhei essa patada de urso inúmeras vezes. Ricardo mandava bem no basquete também, tinha sua famosa munheca que lhe conferia várias cestas. Outra coisa que nem todos os magrinhos conseguem e ele dominava era dar estrela. A dele era épica, nível ginasta olímpico, com o adendo de sempre aparecer seu cofre no final. Ricardo também era um ótimo nadador. Tinha uma relação umbilical sinistra com a água, o pisciano.

O fato de estar acima do peso também tinha respaldo na sua fome, e não apenas fome de bola. Certa vez, Ricardo me deu uma carona voltando da balada e no caminho passamos pelo drive thru do Mc Donald’s. Tenho viva na memória a imagem dele dirigindo pela avenida Henrique Schaumann com uma mão no volante e a outra segurando um Big Mac. O sanduíche partiu dessa pra uma melhor antes mesmo que a Paulo VI se tornasse Sumaré. Não foram nem 5 dentadas, acho. Lembro das porções extra de maionese que ele solicitava nessas refeições típicas de uma época em que junk era vida. Como amigo, nunca o gonguei por isso. Até porque eu também chuchava minha batata frita no molho. Quem teria a moral de apontar o dedo para as preferências do outro? Aos vinte e poucos anos, ninguém se preocupava com saúde.

Mas obviamente ele se preocupava. Ricardo nunca foi comodista nem conformado. Queria sempre mais e melhor. Era um cara espiritualizado, fez umas tantas buscas pessoais por auto-conhecimento. Prestes a completar 28 anos, acredito que ele encarava nos quilos excedentes um fardo que já o acompanhara por muito tempo. Posso apenas especular, nunca conversamos sobre isso. Pouquíssimas pessoas sabiam que ele faria uma cirurgia para redução de estômago. Um procedimento que acabou dando errado. Ricardo morreu aos 27 anos, como tantos ídolos pop.

A última vez que o vi foi no meu aniversário. Teve festa em casa, que acabou sendo o último encontro dele com muitos outros amigos também. Ricardo já estava com a cirurgia marcada para dias depois, mas esse não foi um assunto naquela noite. Opção dele não botar na roda. Talvez não quisesse ouvir o que os amigos teriam a dizer sobre isso, o que é bastante compreensível. Na ocasião, ele me chamou de canto, fora da vista dos demais convidados, e me entregou seu presente. Uma caixa de paçoquinhas Amor. A forma mais ricardiana possível de demonstrar o que sentia por mim. Como eu queria ter dito a ele o que não tive a manha de expressar naquela hora. Dizer que o amava também.

Poucos dias depois, meu bom companheiro deu entrada no hospital para realizar sua cirurgia. Logo se soube que algo fugira do esperado. Família, amigos, todos fazendo vigília por dias seguidos na porta daquele maldito hospital. Ele entrara na UTI e dali não sairia mais com vida.

Coube a outro grande amigo, DJ da mesma banda onde eu tocara com o Ricardo, me dar a notícia fatídica. Na época eu estava em um emprego maçante, tendo problemas com um chefe amador. Naquele tempo eu ainda concedia importância demais ao trabalho. Atendi a ligação e já soube de imediato do que se tratava. Nem desliguei o computador, apenas comuniquei que um dos meus melhores amigos morrera e eu precisava ir embora. Se teve uma lição tirada disso é que mesmo o mais medíocre dos chefes se sensibiliza perante a morte.

Antes mesmo de sair do escritório, liguei para minha companheira. Chegando em casa, liguei para outro camarada. Comuniquei familiares por SMS. Me lembrei da Eva, minha primeira mensageira de morte de amigo. O que é pior? Receber uma notícia de falecimento ou ter que passar adiante essa mesma notícia? E se quem morreu é um amigo tanto seu quanto da pessoa com quem você está falando pelo telefone? Só consigo comparar o que é melhor. Nunca o pior.

Lá estava o crematório da Vila Alpina novamente. Lá estava aquele mundo de gente em lágrimas. Ricardo não era o meu melhor amigo. Era o melhor amigo de uma galera. Talvez por isso tenha partido antes? Já estava em outro nível de evolução espiritual? Cada um que explique para si com sua própria fé. Cá comigo, acredito que ele pressentiu algo. Os indícios? A inusitada caixa de paçocas, um texto místico que ele publicou em seu blog e mais uma série de pequenos e delicados gestos que fez com seus queridos antes de partir. Quem sabe um dia a gente se reencontre na forma de luz, ou reencarnados no mundo animal. Se acontecer, ele me explica. Agora pouco importa.

No dia em que Ricardo completaria 28 anos, nossa banda já extinta se reuniu para um show-festa-descarrego em um barzinho de São Paulo. Emocionante demais. Gravado em DVD, só consegui assistir uma vez. E fui à lona. Sou grato por termos realizado aquilo, foi um momento sublime, mas a vida precisa seguir. Para matar as saudades, prefiro ouvir apenas as gravações de quando a voz dele ainda era presente. Prefiro escutar o cara fazendo arte do que reviver os dias mais tristes que já amanheceram para mim. Dias de luto pela perda de um amigo gigante, quando a saudade de um futuro que nunca chegaria era onipresente.

O ano era 2010 e, de lá pra cá, minha forma de lidar com isso foi colocando uma pedra em cima do assunto. Amo lembrar do Ricardo e adoro ouvir histórias de quando ele habitava esse plano. Mas nunca fui nadar muito fundo nas águas da ausência para não me afogar. Há 2 anos, viajei para Fortaleza a trabalho e, por coincidência, a equipe que fazia a cobertura em vídeo do evento trazia o uniforme da mesma empresa onde o Ricardo trabalhava. Não pude evitar: cheguei neles e perguntei se o conheciam. Os 3 caras simples, câmeras e cabo-mans, foram unânimes em dizer que lembravam dele, sim, e com muito pesar. Ricardo era um cara querido por onde passava e no trabalho também deixou saudade. Ele partiu no meio das suas férias, férias que nunca acabaram para os colegas de dia a dia. Agradeci pela conversa e voltei para o quarto do hotel aos prantos.

Até que, no começo de 2017, os amigos que fazíamos parte da banda decidimos que nos encontraremos no bar todo ano na mesma data. Em homenagem ao Ricardo, vamos seguir a tradição de beber o morto com uma celebração anual. Fizemos isso a primeira vez e foi bonito de se estar. Poucos meses depois, fui convidado a escrever esse texto. O mais difícil que já escrevi na vida, não tenha dúvida. Mas o Ricardo merece e agradeço pela oportunidade. Eu precisava revisitar essa história para que minhas lembranças sobre um dos melhores amigos que a vida já me deu pudessem descansar em paz.

Daniel é redator, já escreveu sobre os mais diversos assuntos, mas é a primeira vez que fala sobre a morte nesse lindo texto feito especialmente para o site.