Esse projeto é um convite para quebrar o tabu. Um canal de inspiração e de informação para quem vive o luto e para quem deseja ajudar

O tempo do trabalho e o tempo do luto

Como é viver o luto no ambiente de trabalho? Será que as empresas são espaços de acolhimento e empatia? Fernanda Sigilão perdeu mãe e, na sequência, pai e compartilha com a gente a sua vivência para que possamos refletir sobre o tema

Fonte da imagem: Andrea Ucini at Anna Goodson Illustration

Por Fernanda Sigilião

O ano era 2016 e eu trabalhava em uma agência grande de publicidade no Rio de Janeiro, tinha muitas responsabilidades e verdadeira paixão pelo o que eu fazia, apesar de sentir também uma grande vontade de empreender e ser independente. Aquele era o segundo ano de luta da minha mãe contra um câncer de pulmão, doença que ela descobriu já no estágio 4 e que a fez  passar pelos tratamentos de radioterapia e quimioterapia, que é – na falta de palavra mais legítima – bem terrível.

Eu ia trabalhar como uma verdadeira zumbi, ansiosa, nervosa e triste. Eu fazia muito esforço para permanecer firme na luta com ela, mas a verdade é que todos os dias – talvez assim como ela – eu tinha vontade de sentar e apenas chorar. Durante horas.

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Minha colega de trabalho, e hoje grande amiga, Bia, foi uma grande parceira nesse época e acolheu muito bem a minha dor. Me amparou, me disse que ia ficar tudo bem e que eu não estava sozinha, apesar de eu me sentir todos os dias assim. Na agência todo mundo sabia da minha situação, mas ninguém tocava no assunto e eu trabalhava normalmente como todos os outros funcionários. Passei muito tempo considerando sair do trabalho para me dedicar a cuidar da minha mãe, uma vez que eu sou filha única e meu pai estava muito sobrecarregado, mas eu tinha muito medo de não “arranjar outro emprego”. Esse é um medo recorrente das pessoas que sempre tiveram carteira assinada e eu digo com muita certeza, esse medo é um monstro sem fundamento, uma crença limitadora. Até que um dia eu tomei coragem e pedi demissão. Passei duas semanas com a minha mãe antes de ela falecer. Duas semanas intensas de hospital, que partiram meu coração para sempre. E hoje, olhando para trás faço o possível para não me culpar pensando que eu poderia ter feito mais e que poderia ter ficado mais tempo com ela. Afinal de contas, as coisas são como são e eu dei o que eu tinha no momento. O passado a gente não pode mudar.

No ano que se seguiu me reaproximei bastante do meu pai e fomos aos poucos reconstruindo nossas vidas. Meu relacionamento ficou mais firme, acabei indo morar junto com o namorado. Tirei um tempo em Alto Paraíso para elaborar e acolher a dor, e aos poucos, ao longo dos meses, mesmo com muita dificuldade, fui recuperando “o chão”, desenvolvi uma carreira como freelancer e a vida profissional foi entrando nos trilhos.

No fim de 2017 resolvi seguir um sonho antigo e com o coração na mão de deixar meu pai no Brasil, tomei uma decisão muito difícil: ir tentar a vida em Paris com o meu namorado que é francês. Fiquei os três meses de visto de turista, trabalhando forte no networking e fazendo muitas entrevistas em agências globais que pudessem patrocinar o meu visto de trabalho. No fim do período, o visto acabou e voltei ao Brasil, fui morar com o meu pai até poder voltar novamente à França e continuei a busca de empregos pela internet. Até que então, um belo dia, me indicaram para uma super vaga em uma grande agência… Tcharan! Fui oficialmente convidada a me juntar à empresa. A proposta era incrível e a oportunidade saia melhor do que o planejado. Depois de 4 meses bem juntinha do meu pai, ajudando ele a passar por momentos muito difíceis, me tornando confidente, aprendendo a ter paciência (morar com os pais depois de adulto é difícil!) e trocando muito amor, tinha chegado a hora de seguir o meu caminho.

Lembro de quando recebi a notícia de que tinha sido aceita no emprego. Ele estava em casa comigo e foi como se tivéssemos ganhado na loteria! Nos abraçamos na sala, em lágrimas, e como dois ansiosos que somos começamos já a pensar em tudo que precisávamos organizar, quando ele iria me visitar e se dava pra ir de barco, por que ele tinha medo de avião. Ele ligou pros colegas do trabalho pra contar. Estava muito orgulhoso de mim. Apesar de não querer que eu fosse embora, ele sempre apoiou os meus sonhos. Seu coração grande sempre pensou mais nos outros. E ele me ensinou que isso é reflexo de um amor verdadeiro.

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No primeiro mês de trabalho, eu me dediquei 200% a fim de entender a nova função e a me adaptar. Eram cerca de seis reuniões por dia, 12h de jornada de trabalho, em dois idiomas e viagens de trabalho recorrentes. Muita competição, agendas secretas dos outros diretores  e um time para motivar e orientar. Não vou mentir, era bastante pressão! E meu pai sempre apoiando por telefone e Skype, “estou rezando por você, filha!”, ele dizia todas as vezes que nós falávamos.

O mês seguinte foi a mesma coisa, muito aprendizado e muita dedicação. Até que no dia 28 de Agosto deste ano (2019) recebi uma estranha ligação, de madrugada, do Brasil: meu pai tinha havia tido um AVC.

Expliquei no trabalho o que tinha acontecido e no dia seguinte voei de volta para o Brasil. Ele estava em estado grave, teve um AVC hemorrágico que comprometeu quase todo o lado esquerdo do cérebro e as perspectivas não eram positivas. Se ele conseguisse sair do coma, muito provavelmente teria sequelas expressivas. Depois da morte da minha mãe, dois anos antes, eu pensava que nenhuma dor poderia ser tão grande. Eu estava enganada.

As duas semanas que eu passei no hospital com o meu pai em coma foram extremamente dolorosas. Eu tentei ser uma guerrilheira feita de pedra e resolver tudo envolvendo hospital, plano de saúde, médico particular etc., mas na verdade, por dentro, eu estava prestes a quebrar como o mais delicado cristal.

O carinho dos amigos e do meu namorado, que veio comigo ao Brasil, me ajudaram a sobreviver. É preciso acolher a própria vulnerabilidade, não ter medo de incomodar os outros. É preciso levantar a bandeirinha vermelha e pedir socorro quando sentimos que não podemos mais. Nunca estamos sozinhos, basta pedir ajuda para receber amor.

Precisei voltar à Paris para trabalhar mesmo com nenhuma concentração ou energia. Eu estava atônita e lembro de fixar a janela durante minutos vendo as folhas das árvores caírem como se o tempo tivesse congelado para mim. Apesar de o meu chefe tentar ser  compreensivo, metas e resultados precisavam ser alcançados e logo comecei a ser diretamente cobrada por performance. Os colegas de trabalho não sabiam muito o que dizer, logo, não falavam nada. E mais uma vez, eu me senti muito sozinha.

Duas semanas depois meu pai faleceu. Peguei um vôo no dia seguinte para o Brasil, enquanto organizava o funeral junto a uma prima para quando eu chegasse. O funeral foi no domingo e na mesma noite voltei para Paris. Eu precisava ir trabalhar no dia seguinte.

E então eu quebrei. A guerrilheira que eu tentava ser ficou só “na minha mente” e o meu corpo fez os meus sentimentos emergirem sem me pedir permissão. Todo choro e tristeza reprimidos vieram acompanhados de uma crise de ansiedade que me tirava o ar sem avisar. E se não fosse o amor do meu namorado e o apoio profissional da minha psicóloga querida, eu não teria conseguido atravessar essa fase. A grande pressão no trabalho e a depressão que eu desenvolvi me fizeram optar por pedir demissão, e junto aos amigos e a psicóloga, desenvolvemos um plano para eu conseguir sair “no tempo certo” ao fim do meu contrato. Assim eu juntaria mais dinheiro, teria direito ao seguro desemprego e deixaria as portas abertas. Podendo assim, voltar ao Brasil para fazer o inventario do meu pai e tirar um tempo para cuidar da minha saúde mental.

Minha psicóloga me recomendou ir a um psiquiatra para cuidar das crises e comecei a me medicar, uma dose mínima de antidepressivo que foi o suficiente para colocar as minhas emoções mais “sob controle” dentro daquele período. Essa solução transitória foi a única saída para que eu não pedisse demissão da noite pro dia deixando de lado algo pelo qual eu tanto lutei.

Ao fim do contrato, 4 meses depois da morte do meu pai, eu estava melhor, mais à vontade com o trabalho e mais confiante também de que sair da agência era necessário para a minha recuperação, para a minha vida pessoal e também para o próximo passo da minha carreira: empreender na França. Hoje vejo que até os eventos difíceis que acontecem na nossa vida, nos colocam em outras direções e cada novo caminho traz novas oportunidades.

Nos meses seguintes, o namorado virou marido, voltei ao Brasil para dar entrada no inventário e comecei a vida empreendedora, aproveitando também para aos poucos reduzir o remédio que me ajudou nos tempos mais obscuros. A vida vai seguindo, a dor nunca passa, mas se transforma e se dá pra ver um alguma luz nisso tudo, eu não tenho dúvidas em apontar: as situações mais difíceis que vivemos guardam sempre grande aprendizados. Se de um lado encontramos dificuldades, do outro, encontraremos apoio e amor. E tudo bem assumir nossa vulnerabilidade e tudo bem tirar um tempo para elaborar, refletir e sentir. A maioria dos ambientes de trabalho costumam incentivar a construção de uma identidade profissional à parte da pessoal e valorizar mais a energia masculina relacionada a determinação, a ter sempre respostas e a personalidades mais extrovertidas, ao invés de reconhecer a importância também da energia feminina, relacionada ao cuidado, a reflexão e a exposição da vulnerabilidade. Sinto que aqui na França as pessoas tendem a separar mais  a vida profissional da pessoal do que no Brasil. As organizações, e acho que principalmente as daqui, vêem como um risco à produtividade e ao foco, trazer as emoções para o ambiente de trabalho.

Cuidar da saúde mental, também é cuidar da saúde. Tudo bem ser humano. E é assumindo a minha própria vulnerabilidade, nesse texto, e me colocando disponível para trocar e apoiar outras pessoas que eu termino essa quase confissão. Vocês não estão sozinhos.

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Fernanda, 30 anos, é carioca e mora em Paris, trabalha com estratégia de marca e acredita muito no poder do “ser inteiro”, que nos permite abraçar o lado racional e emocional dentro e fora do trabalho. Vem aprendendo a importância de reconhecer suas vulnerabilidades e buscando seguir a famosa frase da Oprah “speak your truth, it’s the most powerful thing you can do!”.