Esse projeto é um convite para quebrar o tabu. Um canal de inspiração e de informação para quem vive o luto e para quem deseja ajudar

“Despedir é pedir ao contrário”

Em um texto cheio de delicadeza sobre a morte do pai, a jornalista e psicanalista Érica Toledo reflete sobre a possibilidade de “renunciar à própria vontade para libertar quem vai embora” e mostra como é possível encontrar beleza em meio à dor

Beija_flor

Era um beija-flor roxo, que cortou minha manhã de trabalho com seu rabo de tesoura. Nunca tinha visto uma criatura como aquela. Fiquei imóvel junto à cortina, minutos raros. Um voo luminoso entre os fios grossos de energia elétrica. Antes de ir embora, ele chegou bem junto ao vidro, abriu as asas de frente para mim e exibiu o peito violeta. Assim de perto, vi penas de um milhão de cores e pensei que aquela aparição tinha algo a me dizer.

Duvidei logo dessa ideia sobrenatural e corri para a internet. Constatei que a espécie existe, eu não estava louca. Um beija-flor roxo de paixão, feito manto de semana santa. Roxo como o forro de umas malas que havia lá em casa quando eu era criança e disseram que parecia fundo de caixão. Descobri que o arco-íris da plumagem tinha um nome técnico, iridescência. Que palavra! Precisava escrever sobre isso. Mas o texto deu voltas sem se fechar. Senti que ainda me faltava algo para decifrar o pássaro com cor de luto e brilho furta-cor. Desliguei o computador. Cometi o abandono da metáfora, porque era véspera de carnaval e ninguém é de ferro.

Eu já tinha um roteiro de blocos para seguir. São centenas deles na cidade, para o desespero de pessoas como o meu pai, que se retirou antes do início da festa e se refugiou no mato. Tão opostos nós dois. Eu festeira, ele austero.

No fim de um dia de batucada, recebi dele uma foto da paisagem bonita onde ele estava. A legenda dizia: “As montanhas e a chuva fina, um convite ao repouso”. Como no caso do beija-flor, não entendi de imediato os segredos da mensagem.

Na manhã seguinte, a notícia: infarte. Susto, estrada, setenta e sete anos, nenhuma doença. Seria o repouso? Choro, estrada, vai dar tempo? Telefonemas, estrada, cheguei.

– Vai demorar muito?

– Não, pai. Disseram que ambulância chegaria até o meio dia.

Pressa. Ele com dor no peito, eu com dor na alma. Minha maior urgência era pronunciar as palavras que estão na origem e não poderiam faltar no caso de um fim.

– Eu te amo, pai.

– Eu também te amo, filha.

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Erica e o pai, Pedro

A luz vermelha da sirene se espalhou na portaria. Ele se queixou de frio quando o colocaram na maca. Embrulhei seus pés gelados num lençol verde. Ao fecharem as portas do veículo, tinha alguma calma nos meus sentimentos.

Voltei dirigindo o carro dele. Os olhos marejados tentavam se apegar ao caminho e a memória se virava para trás, revirava história. Ele sempre racional, eu idealista. Ele estável, eu sonhadora. Ou, como na foto, ele montanha e eu chuva.

Cheguei correndo à porta do CTI a tempo de ouvir do médico que o coração estava muito fraco, seria preciso intubar.

– Posso falar com ele?

– Rápido.

Quando encontrei meu pai em uma das camas, uma enfermeira me segurou. Você não pode entrar aqui. Mas uma outra disse: o doutor deixou. Era uma senha. Dê à filha a chance de tentar colocar, em alguns segundos, uma vida inteira. Dê à filha a chance de, numa frase, explicar a importância dessa voz tão segura e permanente. Dê a ela a chance de, num gesto, garantir que aprendeu a bondade que ele ensinou.

– Ei, pai.

E a última coisa que escutei dele foi:

– E o carro?

O carro? Seria uma tentativa de se apegar à vida? Será que, de frente para a morte, precisamos desviar os olhos para qualquer distração trivial? Será que disfarçávamos?

– Tá tudo certo. Fica tranquilo agora. Você vai fazer um exame e, quando você sair, vou estar aqui te esperando, tá?

Ele já não tinha voz para responder. Assentiu fechando os olhos.

Despedir. Não consigo pensar em nada mais importante a se fazer por um amor de quem se aparta. Despedir é pedir ao contrário. Des-exigir. Retirar as cobranças. Abdicar das demandas. Renunciar à própria vontade para libertar quem vai embora.

Combinamos que ele voltava, talvez já sabendo que aquele diálogo era só um último cuidado.

Quando minha filha mais velha soube da notícia, veio direto do carnaval. Roupa estampada, brinco de flor, enfeite no cabelo. As lágrimas caíam dos olhos transparentes dela e se misturavam aos adesivos prateados colados no rosto. Uma cena tão bonita em um cenário hostil.  

Naquela hora, me lembrei do beija-flor. Seu mistério roxo e colorido. Não é tudo incerteza enfeitada pelas nossas esperanças? Não é tudo folia e pó?

Quarta-feira de cinzas. Crematório. Meu filho escolheu para o avô uma urna com desenhos de folhas voando.

Minha caçula disse: Mãe, parece que o vovô está rindo. Parecia sim. Naquela hora, ele era dever cumprido. Eu, agradecimento.

Não havia roxo no caixão, acho que não se usa mais. Porém, o beija-flor sobrevoava minhas emoções. Cortou com seu rabo de tesoura o fio da presença concreta.

Do lado de cá, ficou a vida escura, iluminada por momentos, delicados feito pluma de passarinho.

Leia outro texto sobre o luto de autoria de Érica Toledo Corrêa, em seu blog sanguinea.com.br.