Esse projeto é um convite para quebrar o tabu. Um canal de inspiração e de informação para quem vive o luto e para quem deseja ajudar

O tempo não anda

Da descoberta da doença à morte, foram apenas seis meses. Nesse tempo, tão breve quanto intenso, Bárbara viveu cercada pelos três filhos e teve sua despedida transformada neste lindo relato-poema de memórias e conversas que o filho mais velho, Paulo Kaiser, dedica aqui à mãe.

Por que se ama uma mãe, porque…

Para Bárbara

“La naturaleza no simula. Suma, resta. Hace unos minutos parecia. Hace unos minutos mi madre estaba viva. A la resta habrá que sumaré su ausencia.”

“A natureza não simula. Soma, subtrai. Há alguns minutos parecia. Há alguns minutos minha mãe estava viva. Na subtração terei que somar sua ausência.”

Consolament, Jorge Esquinca

O que é uma beleza. Uma pergunta sem interrogação. Duas. Três. Narcisa, gata borralheira, revlon? Algo concreto? Provocação: o belo é tão feio a ponto de não caber num verso? Uma beleza da vida é poder negar a beleza quando se quer. Não só quando e porque ela evanesce, dilui-se nos dias, passa, se desinteressa de nós – e a gente aceita que fique por isso aqui mesmo. Quando uma mãe, a mãe, diz “não quero estender a minha vida porque, com o seu choro, entendi que ela vai se encurtar”, há e não há beleza aí. Há um sinal trocado. Há dois retratos que se veem, se medem, se entendem. Não deveriam ser belos, mas tentam. Depois não há sustos mais. Eles sumiram por nossos pés. Os meus segurados, firmes, sobre o tapete do quarto, marrom e vermelho (uma matéria marrom e vermelha, é assim que lembro), os dela segurados coisa de centímetros flutuantes, prontos para as meias. Eis uma beleza.

O tempo não anda.

Para certos ouvintes, escolhidos a dedo, ela parece ter vivido somente até os 12 anos e depois dos 60. A mãe dizia que tinha “pés comunistas”, com dedos tortos, gavinhas (“Você tem nojo dos meus pés?”, ela indagou. Eu não, nunca.), o resultado das “botas comunistas” de uma “infância comunista”. A partir de certa idade, uma mãe sempre parece estar suspensa em um tapete voador, com os pés envoltos no talco da memória preferida.

O tempo não anda.

A ponta candente de um cigarro teimou em queimar o bico do pâncreas dessa mãe, o pavio curto dela. Para manter a lisura do diagnóstico, ela continuou a fumar, impassível de melhora. Querendo ficar longe da feiura do mundo.

O tempo não anda.

As suas palavras são o espelho de suas palavras, sem tirar nem pôr. Elas dizem o que seu corpo, farto de carrosséis de frases, repete: “Quero jogos mais difíceis do que a santa paciência”, “a radiestesia funciona neste corredor de hospital”, “você não entende de nada” etc.

O tempo não anda.

Você é um animal, uma cobra que nunca trocou de pele.

O tempo não anda.

Eu fiquei mais velho com ela. Hoje faço a barba com menos frequência. As mães envelhecem tudo ao redor, como um relógio de corda. Envelhecer não é úmido. É toda uma terra sem água, sem ondas. Sobra algum rio para contar histórias?

O tempo não anda.

A primeira e única cidade que ela conquistou era sinuosa, como ela. Hoje a mãe é pontiaguda, como seu bairro. Ela cantava refrões de emepebê, mas hoje lê o número de telefone nas caçambas.

O tempo não anda.

Durante anos os invernos foram tórridos nessa cidade. Uma data renovou o solstício de inverno: sua primeira ida ao pronto-socorro. Os cochilos depois disso ficaram mais frequentes e agradáveis, com o abraço dos travesseiros de cetim.

O tempo não anda

No calendário. Calendários são velhos de séculos, mesmo os novos, todos eles, de 1 de janeiro em diante. Passamos juntos o ano-novo velho, sem data. Sem artifícios.

O tempo não nada.

Eu gosto de ouvir você roncando. Até pra que você possa continuar roncando. Sempre ronque.

O tempo não anda.

Me amedrontavam as formigas-cortadeiras nas roseiras da infância. Atta sexdens, era você? Sem falar nas tanajuras, caindo do céu.

O tempo não anda.

Só uma palavra não descreve a vida. Juntas descrevem?

O tempo não anda.

Quantos baldes de água você foi capaz de transportar à noite? De uma fonte a outra, de uma privada a outra? Sem ser notada, com pés silenciosos, envoltos pela fumaça de cigarro. Acreditando estar limpando o mundo.

O tempo não anda.

Hoje eu me fiz triste fazendo-a triste, com um teatrinho do derrame dela.

O tempo não anda.

Como dar alimento a um barro vivo e pálido, para qual papila disfuncional, tornada insípida? Carne verdura bem lavada e cozida, “exagere no sal, exagere no açúcar”, iogurte omelete whey macarrão em copo, tudo com microplásticos variados, “é só encher com água fervente até a marca”. Qual…

O tempo não anda.

Todas as suas dores são maiores que as do parto, segundo você mesma. (Existe exagero nesta proposição algébrica: “∧: você brilha e está calor”?)

O tempo não anda.

Do nada você me chamou pra dizer, e eu fingi não entender sua língua de lágrimas. “E q r rer.”

O tempo não anda…

…Até que desande, como o sapo cheio que é, em curtos saltos
pra trás: pra frente:
a presa de um amor anfíbio de mãe e filho.

*

tic tac tic tac tic tac mãe presente, mãe ausente, mãe provedora, mãe castradora: “carinho só no rosto, e de baixo pra cima”, mãe artista, mãe jovem, mãe cabeluda, mãe do bairro palmeirense, mãe culta: “paulo, o que é mesmo o estoicismo?”, “são vales-compra e pasteizinhos chineses que a gente junta pra bem morrer depois”. ela riu, mãe sorridente, mãe de cara feia: “quem será que come o chocolate dos bombons e deixa estas casquinhas secas? que horrível”, mãe de carro e sem carro, mãe de pés e mãos bem cuidados, mãe enervante: “você quer brigar com a televisão, briga na sua casa. não na minha”, mãe da sopa de tomate e da chantagem: “vou fazer um bolo pra você me tirar do hospital”, mãe que estica a vida, mãe que contrai as horas, mãe patriarca, mãe de cabelo pintado, como uma loba de cachos castanhos, mãe que diz pipi, em vez de xixi: “sabe, os dentes que a gente tem mas que não são os mesmos que a gente tinha?”, mãe louva-deus: “o controle remoto da tevê é meu pau”, mãe de minissaia e analisada, mãe de luvas, boné e boca de lã, mãe costureira, mãe cartesiana: “está quente, abre a janela um dedo. ficou frio, fecha um dedo. melhorou”, mãe das palavras ajuizadas pelo “fio do bigode”, dela e deles, mãe orca, mãe garça, mãe panda, mãe pâncreas, mãe fígado, mãe bile, mãe com fome: “não quero saber de nenhuma filosofia sobre comida, quero o miojo!”, mãe de um sábado de 1943 em que se assava um rocambole de papoula, mãe rorschach: “você vê este rosto aqui, aparecendo entre as pedrinhas? eu sou craque em achar eles por aí. tá vendo? ele gargalha”, mãe de dois abortos, mãe de 12 anos, mãe de 17 anos, mãe de 82 anos, mãe presa ao signo de aquário: “você nunca transou pelado, só de bota?”, “talvez com roupa e sem bota. você tanto aprontou, mãe, e ainda não se livrou das botas comunistas”, mãe livrada do ovário: “depois que você nasceu, fui costurada da vagina ao ânus”, mãe quase frágil: “traz pra mim os seus perfumes de homem. vão ser os últimos que vou sentir”, mãe parede, mãe janela, mãe esquadro: “este livro de crônicas brasileiras está muito pesado”, mãe do urocol e da biobag: “não, não sai daqui, fica comigo”, “fico”, mãe do silên)io

*

Miniavecê, vértebras e costelas ocas, apneia.

Eu não consegui mais lavar seus pés, esvaziados para sempre de ilhabela,
machu picchu, óvnis, creme nívea,
hidroscopia. E tudo que viva.

*
Post scriptum

“Voltei a esta página, como um fantasma,
para escrever que a minha vida foi uma conversa incontroversa, uma máquina veloz.

Até se transformar em código morse: não há lá acolá, ali dali, nada de lá pra cá.
Nem etcétera. Ainda que minha língua tenha lambido o próprio sangue na mão do algoz.”

Paulo Kaiser é mineiro, formado em português e linguística pela Universidade de São Paulo, trabalha há mais de 30 anos com revisão de texto e tradução, em grandes empresas jornalísticas. Sua paixão são os livros e as plantas, que ele compartilhava com a mãe.