Inspiração - Reflexões
Como falar com os mortos
Eu gosto de ir ao cemitério.
Gosto particularmente de ir ao cemitério no Dia de Finados. Gosto de me sentir rodeada de gente que está ali com o mesmo e amoroso objetivo de cultuar alguém querido que morreu. Celebrar a data como a Festa dos Mortos ainda pode soar um pouco estranho para quem não vive no México e aprendeu a dar um tom mais solene para a data. Não importa. Chamemos então de comemoração: a reunião de pessoas que visitam, sozinhas ou em grupo, o jazigo da família para depositar uma flor, fazer uma oração ou simplesmente permanecer em silêncio diante do local onde jaz um avô, avó, pais, irmãos, filhos. A filósofa belga Vinciane Despret nos lembra que o ato de comemorar é “fazer memória com”. Fazer, através da memória, nossos mortos existirem no presente, prolongar suas vidas em outro lugar. “Se não cuidarmos dos mortos, eles morrem de fato “escreve Despret.
Entendo que essa comemoração não precisa de lugar ou data marcada, mas o dia estabelecido, o cenário e a intenção coletiva nos ajudam a estabelecer essa conexão em um idioma próprio que transcende o mundo dos vivos. Não falo de comunicação mediúnica, embora não tenha nada contra quem creia e pratique essa conversa entre planos. Mas da língua que usamos para falar com que não podemos mais ver, mas seguimos amando, ouvindo e reverberando o eco da sua existência. A herança dos nossos mortos é definidora de quem somos. Pensar nisso deveria ser um reconhecimento e uma reverência diários.
Comemorar o Dia dos Mortos é amplificar sua existência e fazê-los viver de outra maneira.